Sofrer não vale o esforço

Amasso a ponta do cigarro no meu pé
seguro firme minha guitarra contra o peito
deixo o silêncio no passado e canto
‘o que tá feito tá feito’

tá quente que nem o sol da Baia
me salta que ali não é lugar
nem Exú encara esse desaforo.
Tudo circula bem antes de voltar

Não quero chegar
Aonde vou ficar?
Meu Deus pra que tanto rezar?
Será que tudo é de olhar?

Como fica se parar?
Tô na encruzilhada, vei
Nem se quisesse podia retornar
Eu vou é dançar nessa parada

Amasso a camisa na minha cara
Aqui “sua” muito bem cedo
Nem precisa saber que vai chover
É que tô sempre com medo

Pra quê me olhar tão fixo assim?
Você sempre vai subir uma ladeira, mesmo
Vai sempre olhar pra Casa Vermelha
Fatumbi fecha mais cedo essa janela de madeira!

Agora, de verdade, cuidado com a arma
Que tens sobre o pescoço
Nem toda Regional te salva de um ‘ferro’
Sofrer não vale o esforço.


A gente não vai querer

Todo dia a gente diz que se ama
Mas a verdade é que nem parece de verdade
O quanto a gente se quer
Mas, e seu eu disser?

E se você quiser? Não!
Tem como parar?
O tempo não vai deixar
A gente não vai descer

Ninguém pode medir mais
O que nós não conseguimos parar
É que ficamos juntos bem demais
E isso vai além de amar

Minha voz se confunde com a sua
Todo sábado de manhã eu lanço amor ao vento
É tudo bem mais feliz que desejei
E assim vou aproveitar esse nosso tempo

E se você vier? Sim!
Tem como te amar?
O tempo não vai parar
A gente não vai querer

‘Qualquer coisa eu também danço com você’

Quando ela me joga na pista de dança
E vem com seu cabelo amarrado em uma trança
Eu congelo tudo isso no tempo
Nem o amanhecer vai tirá-la de mim

Isso nunca vai ter fim
Eu sei que vai ser bem assim:
Esse amor não vai ser só para ver
‘Qualquer coisa eu me jogo em você’

Com toda a paixão desse beijo
Posso viver bem mais que o mundo
Tudo bem se ela jurar me amar só essa noite
Prometo amanhã não deixar passar

Não sei bem o que aconteceu
Uma Deusa, amor antigo meu, ficou comigo
Não me importo em ‘pular’ aquela música
Ela não sai da minha mente

Mais uma vez na minha frente, ela vem me beijar
Agora, só há eternidade nesse mar
Não tem foto no Insta para olhar
O que temos é só para lembrar

Mas não vai ter fim
Eu sei que vai ser bom pra mim
Esse amor não vai morrer
‘Qualquer coisa eu também danço com você’

 

 

Meu próprio estresse

De frente tudo são sequelas

De uma vida de páginas amarelas

 

De frente eu torpo a interesse

Alheio a meu próprio estresse

 

De frente purgo minha identidade

E renego meu ego por pena e auteridade

 

De frente bato no muro com firmeza

E vejo o quanto de tristeza

Não faço questão, mas desapareço

De seu apreço

Perdido amor

Coração que outro ganhou

 

Onde olho?

Deitado no piso de madeira, olho para o concreto do teto. O retangulo de alumínio e vidro, da parede ao lado, deixa a luz do Sol bater no meu peito. “É quente a vida”. Tentação! E, a brisa que circula entre as paredes de branco gelo diluem a dureza da manhã. Que frescor?! Me tenta até não poder mais.

Onde olho? Vejo meu coração, seja no concreto frio e seco, químico e fisicamente estático que me protege da vida de lá, do lado de fora. Seja no branco do meus olhos, tão iguais aos seus e aos deles tão diferentes. Eles não entedem. Nem mais você. E isso faz sentido: não busco ser entendido, busco ser atendido. Muitas vezes confundo e troco o segundo pelo primeiro. Mas, não escapo! A realidade me joga no chão da sala e diz que é segunda-feira. Preciso correr para que me sirvam mais paredes de concreto e alumínio.

Meu sono sobre o papel 

Tenho um pequeno hábito diário: escrevo antes de dormir. Não são, de modo geral, escritas complexas. São, mais que tudo, “receitas do dia” (coisas que vi ou aprendi) ou por fazeres para depois do raiar do Sol. Escrevo, então, onde der: na telha, no caderno, no boleto a pagar, no celular, na parede ou no computador. Posso dizer que sou multisuporte, mas monomedia. Poderia fazer um vlog, ser YouTuber (está na moda), mas é o texto que mais me atrai. Consome o lápis sobre o papel, às vezes, a nankim do tinteiro, e meu sono por inteiro. 

O passante de mim mesmo

Andar por Salvador é uma aventura estranha (no bom sentido) e nova a cada novo dia. Não me engano sobre a beleza da cidade. São as pessoas que deixam cada sagrado canto soteropolitano excêntrico e jamais intediante. Essa cidade não seria a mesma sem os tipos que florecem aqui. Às vezes penso que, na verdade, são uma entidade só. Um grande orixá que se esmeira por cada canto dentro dos limites dessa cidade. Mas, erro: em cada metro quadrado há uma pessoa diferente, mas, afirmo, sempre com a cara da cidade. Salvador tem milhões de caras e ninguém pode conduzir um pensamento em contrário. Eu então…

Contudo, andar por Salvador também me molda. Sou uma pessoa notável dessa cidade – até para mim mesmo – como qualquer outra. Não nasci nas águas de Yemanjá, sou sertanejo, mas aqui me reagreguei com todos os santos. Reparo que quando passo e conheço novas pessoas aqui, também passo por mim mesmo. Me vejo nos rostos dessa cidade. Me vejo não como parte de Salvador, mas como fruto imaturo (ainda) dessa árvore paubrasilis que cresce neste recôncavo de maré quente.