Aqui, amanhã

Eu gosto de colocar os pés no chão
E sentir o calor da Terra
Eu gosto de planejar o dia
Enquanto ainda não amanheceu

Eu quero conhecer o mundo todo
E não quero sair de casa
Quero partir para sempre voltar
Isso é querer demais?

Seja quem quer que seja
Seja sempre o que disse ser
Mas não brigue comigo amanhã!
Que tudo fique em paz, meu bem

Eu vou brigar com um campeão um dia
Vou subir em uma nave e decolar
Quem sabe também não vou até você?
Isso ainda vamos ver

Serei bem mais do que já fui
Vou ver alguém um dia desse ai
Vou ser alguém que não você!
Pra mim já basta de querer ser

Seja quem te quer também
Seja sempre o que deseja ver
Mas não me ame só amanhã!
Ai, não estarei mais aqui, meu bem

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Foi o mundo que cresceu?

Mas, eis que me vejo em um mundo pequeno. Ele cresceu diante dos meus olhos! “Aquele abraço” me faz falta. Sua companhia é meu refrão.

Qualquer frase é música que quero cantar. Minha voz anda cada vez mais perto. Carrego minha viola na mão, desenhada em um papelão.

Pião de obra ouve meu rádio. Vento de madame sopra pro meu lado. Eu sou o moinho dentro de mim. Não é que queira, mas abrigo me falta.

Não é que tenha escolhido, mas abrigo essa vida. Corro pela esquina pensando em quem está do outro lado. Que canção é essa? Tá faltando uma nota alta!

Me vejo uma criança exemplar. Foi o mundo que cresceu? Ou fui eu?

Me vejo te olhar. Valei-me tanto desejo! “Por que você me escolheu?”

 

Nenhum Medo

Medo te destrói por dentro. Às vezes não passa com a maré. E o que as pessoas veem é apenas a ponta do iceberg. Às vezes você também só vê a ponta e, antes que perceba, está dentro do Titanic.

Medo te prende ao passado. Te cega no presente. E tira seu futuro.

Medo te faz passar ao lado dela, aquela que você sonha, te deixa sem coragem de falar, mesmo ela piscando para você todos os dias. Medo te impede de beijar a vida quando ele pede para você fazer isso.

Medo estraga a porra dos seus sonhos. Medo não traz pesadelos, medo suja a realidade. Ele te faz se sentir com outros 500 anos aos 30, ou antes. Medo não te leva à Bahia.

Medo te leva à páginas de Bolsonaro no Facebook e uma conversa sem vírgulas no Whatsapp. Medo não paga as contas, mas infla o pato!

Medo faz sua – a minha – geração assistir de camarote enquanto o bloco passa lá embaixo.  O bloco toca Gilberto Gil e Novos Baianos e a pipoca só pula. Camarote não toca axé!

Medo nenhum paga a alegria de vestir branco em dia santo. De cantar para o Mar, mesmo às quartas-feiras. De comer um acarajé sem se preocupar com o amanhã.

Medo. Tenho. Às vezes uso. Às vezes expurgo.

Antes

Antes de entrar na floresta
Você precisa de um mapa
Antes de atravessar o rio
Você precisa de uma canoa

Antes de você enfrentar a tempestade
Você precisa construir um abrigo
Antes de você correr sob o Sol
Você precisa de bons sapatos

Antes de escrever sua enciclopédia
Você precisa de um bom dicionário

Antes, às vezes, você precisa de alguém
Do seu lado.

Convencimento, um conto.

Saiu de casa e jogou a chave por baixo da porta. Essa história ele lembra. Andou sem compromisso, mas sabendo onde ir. Essa história ele lembra.

Sentiu o sabor do vento tocando sua pele, enquanto a chuva se aproximava. Era inverno em algum lugar. Ali era verão, e a chuva iria cair forte. O arco-íris gritava isso: “não tenho tesouro para você”. Lamentou o resto do seu dia, mas se sentiu feliz.

Lembrou da chave por baixo da porta. “Vão ter que abri-la com um machado”, resmungou para si. Dobrou a esquina e viu que precisava dobrar outras. Conhecia aquelas ruas, ainda que se sentia sempre redescobrindo novas coisas. “Aqui tinha uma casa sem teto”. “Aqui tinha um campo de bola”. “Aqui tinha um amigo que se foi, agora tenho um conhecido”.

Se olhássemos por baixo, era possível vê-lo contra o céu. Uma figura sob o céu cinzento que avançava sobre o céu azul. Não sabia qual cor era mais bela. “Claro”, pensou, “depende da cidade”.

Se olhássemos por cima, seria possível ver um ponto cruzando esquinas sem calçadas. Apenas um ponto no mapa. Retraçado seu trajeto, mudou de lado da rua. Colocou a mão no bolso, pensou pouco e silenciou-se. Andou mais rápido, por não querer ser tomado como um tolo.

Andou mais calmamente quando pensou em cabelos castanhos voando ao vento. Quando pesou em uma pele com cheiro provence. Não pensou mais em andar. Parou sob uma luz em seus olhos, um reflexo de um passado pueril que cai de vez em quando.

Já no meio do trajeto, sem parar, olhou para traz. Era longe demais. Não tinha perseguido muito. Estava só desde antes. Teria que ser assim até depois. “Vão ter que quebrar a porta”, resmungou ao olhar um teto ao horizonte. “Pelo menos haverá ânimo novo lá”.

Corria nas veias sabor de cana. Corria nas veias açúcar e sal. Corria nas veias da cidade com trajeto apreendido, mas sem lugar para ir. Estava tudo certo, bastava chegar.

Teve o convencimento que tudo estava bem. Se lembra de dias melhores. Se lembra que desejou mais ao não querer nada. Quis ter, falhou em desejar. Subia no murro para ver o outro lado da verdade. Só encontrou partidas, sem respostas. Agora, anda descalço pela rua.

Já como quase uma oração, seu coração batia sem ritmo. Tentava se enganar com o glamour das luzes que as gotas da chuva refletiam do Pôr-do-Sol. “Venho aqui te requerer um pouco mais, fica comigo”. “Tenho mais paralelepípedos para calçar”. “Se quiser, posso te orientar”. “Onde você vai ficar”. Bem, ela ficou e ele teve medo. “Agora, esse passado só me cega. Ando melhor assim.”

“Tudo está bem?”

Tudo está bem!

Caminha páreo outrem. Caminha páreo como ninguém. Caminha correndo também.

“Não conto minha história. Ela está cheia de passado e muitos passos. Pouca glória. Conto os da minha frente. Quantos preciso dar, ainda? Já me sinto cansado. Não é justo comigo. Não queria que quebrassem aquela porta”.

Era dia de expurgo, isso ele lembra. Era dia de sentir vazio, isso ele não desejou. Era dia de preencher com algo novo, isso ele queria.

Era criança, isso ele não lembra. Carregava seu irmão pelo braço, isso ele não lembra. Era apenas o começo, isso ele não imaginava.

“Eu também sei flanar”, brandiu.